outubro 08, 2007

O que resta?

autoria da foto: isa p

O que resta, do edifício bem construído, sólido, resistente?
Talvez lhe reste a história, perdida a memória.
Talvez lhe restem os alicerces de pedra, destruídos os materiais frágeis que lhe compunham as fachadas.
Talvez lhe reste a alma.
É preciso muito cuidado, para manter o que resta.
Muito cuidado, para manter-lhe a dignidade.
Mesmo na ruina.

outubro 07, 2007

outubro 06, 2007

De mãos vazias


No princípio foi o Aricept.
Depois nada.
Depois acharam que não havia medicamentos para o teu mal.
Outros receitaram Reminyl.
Repetiram.
Repetiram.
Os anos vão passando e as tuas incapacidades cognitivas aumentam assustadoramente.
Mais tarde dizem que receitarão Ebixa, para uma fase mais avançada da tua doença.
Nada.
Esses medicamentos não fazem nada.
Nada fazem que se veja, que se sinta...
Acho que os médicos te passam as receitas só para não sairmos dos consultórios deles de mãos vazias.

Tudo começou...


Há 7 anos. Tinhas então 59 de idade. Toda a gente te achava ainda nova e vigorosa. Ocupavas grande parte dos teus dias a dar aulas, o que sempre fizeste com facilidade e prazer. Os alunos eram a principal motivação da tua existência. Todos eles te achavam a melhor professora. Em cada um que revias, reencontravas um amigo. Abraços, beijos, recordações, sorrisos...

Nesse ano tinhas "uma turma péssima", dizias. Não estavas a conseguir "aguentá-los". Disseste que vinham à primeira hora de aula e faltavam à segunda, escreviam mensagens no telemóvel durante as aulas, mentiam dizendo-te que estavam doentes e não podiam fazer o teste...levando-te, com a tua dedicação e ingenuidade de sempre, a fazer um teste especial para eles, enquanto namoravam no pátio da escola... Tudo situações que costumavas saber enfrentar e resolver, sem crise.

Mas entraste em crise. Não conseguias dormir bem, tu que sempre caíste à cama adormecendo de seguida. Tinhas vontade de chorar, tu que estavas sempre bem disposta e animada.

Não sabias, pela primeira vez, o que fazer. Disseste-me que, às vezes, faziam-te perguntas às quais não conseguias dar resposta. Que, nesses momentos, até nem saberias dizer o teu nome, se to preguntassem. Nunca te tinhas sentido assim perturbada nos 35 anos de ensino da disciplina que adoravas e na qual eras exímia professora.

Passava-se alguma coisa de muito sério.

As amigas disseram-te que eram sintomas de depressão. Que devias ver um psiquiatra.

Consultaste um. Tinhas uma depressão, sim. Mas cedo ele conseguiu ver mais do que isso.

Revelavas os primeiros sintomas de falhas graves de memória, não aqueles esquecimentos que todos temos no dia a dia. Uma bateria de testes específicos feitos em Coimbra, não deixou margens para muitas dúvidas.

O médico receitou-te Aricept, dizendo-te que podias vir a ter a doença do teu pai: Alzheimer. Entendeste que estavas a ser medicada com um preventivo. Nunca disseste que tinhas a doença, mas entendias que talvez a pudesses vir a ter, tal como o teu pai, e a mãe dele.

O diagnóstico veio a ser confirmado por neurologistas mas cedo esqueceste até o que te diziam os médicos. Passaste a rotular o teu estado de ' depressãozinha', pondo-lhe um diminutivo, para parecer coisa de menos importância.

Passados 7 anos, ainda acreditas, ou fazes por acreditar, que sofres de depressão, e que Alzheimer é a doença do teu pai.


outubro 05, 2007

Ainda ontem...


Ainda ontem tinhas a memória intacta.

Ontem não. Há sete anos. Mas parece ter sido ontem.

Sabias tantas coisas! Ciência, livros, música, viagens, fotografia...

Hoje nem sabes que nada sabes.

Há quanto tempo!

Para ti, por ti


Devo-te a melhor parte do meu passado e do meu presente.

Sem ti não teria conhecido quem conheci, vivido com quem vivi, dado ao mundo quem dei.

Foi o destino que te atravessou no meu caminho.

Por isso farás, inexoravelmente, parte do meu futuro.

Mesmo que não tenhamos futuro.

Pelo menos não teremos o futuro que quisemos ter.


Razão de ser


Já tardava!

Há muito que pensava criar este espaço.
Sobre o tema, pesado, de viver com a doença de Alzheimer.

Na esperança, talvez, de conseguir aliviar o peso que carrego, por força de circunstâncias familiares.

Sem medo de usar as palavras.Mas nunca usando o nome de quem falo.

Por favor...Compreendam o pudor.Entendam a sinceridade.

Sintam a dor.Partilhem dela.Para que se torne menor.

Quem souber do que falo, saberá que não exagero.

Tudo o que disser será verdade. Acontecida. Vivenciada.

Talvez alguém encontre aqui alguma coisa que lhe toque. Talvez lhe sirva a minha experiência...

Talvez do que aqui ficar, fique uma memória. Sobre quem já a perdeu.

Talvez ainda haja tempo...

Talvez...